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Quando ajudar também nos transforma


Há gestos que começam com a simples vontade de ajudar e acabam por transformar profundamente quem os pratica. É precisamente isso que Sandra Palma nos conta neste testemunho sobre o seu percurso como voluntária da ATLAS.

Quase dois anos depois de iniciar as visitas a pessoas idosas, Sandra descobriu que o voluntariado é muito mais do que oferecer tempo, é criar laços, escutar, acolher, compreender e estar presente, sem julgamentos.

Um testemunho sincero sobre solidariedade, envelhecimento, relações humanas e, sobretudo, sobre aquilo que recebemos quando decidimos dar um pouco de nós aos outros.

Há quase dois anos, quando tomei a decisão de fazer parte da Atlas e começar a visitar pessoas idosas, estava longe de imaginar tudo aquilo que esse gesto traria à minha vida. Entrei a pensar que iria, simplesmente, visitar pessoas e fazer-lhes companhia. Talvez conversar um pouco, ouvir histórias, ajudar a quebrar algumas horas de solidão.  Mas, entretanto, aconteceu muito mais do que isso.
Criaram-se amizades. Criaram-se laços. Criou-se vontade de estar, de cuidar, de proteger.
Porque, quando nos aproximamos verdadeiramente de alguém, deixamos de ver apenas “uma pessoa idosa que visitamos”. Passamos a ver uma pessoa inteira, com uma vida, uma história, escolhas certas e erradas, alegrias, perdas, feridas e, muitas vezes, uma enorme necessidade de carinho.
Talvez o maior ensinamento que o voluntariado me deu seja a aceitação, simples, sem nenhuma condição.
Aceitar que cada pessoa tem as suas dificuldades e que nem sempre conhecemos toda a história que está por trás delas, sobretudo quando sabemos que existem relações familiares difíceis, mágoas antigas ou acontecimentos que deixaram marcas.l

Nos momentos mais desafiantes, tento lembrar-me de uma coisa muito simples: nós não estamos ali para julgar a vida daquela pessoa. Não fomos nós que vivemos aquilo que ela viveu, não carregamos as suas escolhas nem as suas consequências

Estamos ali para aquilo que podemos fazer hoje: ouvir, conversar, dar um abraço, levar uma palavra de carinho, fazer companhia e olhar verdadeiramente para que aquela pessoa se sinta vista e importante. Porque, independentemente daquilo que uma pessoa fez, dos erros que cometeu ou das circunstâncias que a trouxeram até onde está, continua a ser merecedora de carinho, de respeito e de amor.
Acredito que, enquanto voluntários, por sermos de fora do seu círculo familiar, é-nos mais fácil oferecer a nossa presença sem julgamento. Acredito que é nosso dever, enquanto voluntários, dissociarmo-nos do peso das histórias passadas. Não podemos mudar o passado de ninguém. Não podemos reparar todas as feridas, resolver todas as solidões ou substituir os afetos que faltam, mas podemos estar, em verdadeira presença

Quando comecei este caminho, pensei que estava a oferecer um pouco do meu tempo a alguém, mas estava longe de imaginar que em troca receberia o valor das aprendizagens sobre o amor, o julgamento (ou a ausência dele) e a condição humana

Sou imensamente grata por este caminho. Obrigada ATLAS, por esta oportunidade.

Sandra Palma

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